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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Inútil

“O passado é inútil como um trapo”. Ele passou pela tua rua e a memória daqueles tempos doces de cheiro a amoras selvagens brilhou-lhe no coração durante um fraco de tempo. Mas depois até essa memória da memória lhe desaparece da mente. E a memória é objetivo, é fria. Não sente nada para alem de uma sensação de familiaridade, que é sempre uma sensação suavemente calorosa. Não sente para alem daquele arrepio de Dé já Vu porque já apanhou este autocarro antes, já saiu nesta mesma paragem antes, contigo a salvo no peito. Mas é inútil. Porque é o mesmo eu dele. É o mesmo autocarro. É a mesma rotina, o mesmo quotidiano. É a mesma cidade, permaneceu imóvel a esse romance falhado. Um romance falhado serve unicamente para uma espécie de aviso de não repetição. Uma cicatriz no coração. Um romance falhado é uma marca sensorial e são serve para isso, para se dizer que se viveu de alguma forma de alguma maneira. Amor não existe sem certo conceito de aleatoriedade. Foi tudo inútil, agora nada existe. Até o flanco foi inútil. Gastaste-o e ele renasceu e já não sabe quem és. Recorda-te como se recorda de uma equação brilhante matemática ou de monumento magnificente que o fascinou. Recorda-te sem se lembrar de quem és. “O passado é inútil como um trapo”.

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